29 anos em busca da sobriedade
Hoje (31 de março de 2024), contabilizo 29 anos de abstinência de álcool. Normalmente não costumo celebrar, mas desta vez apeteceu-me escrever algumas palavras.
Recordo com saudade aquele dia de 14 de novembro de 1994, em que entrei numa sala de AA pela primeira vez na igreja do Estoril, apenas com 23 anos de idade. Só consegui, no entanto, a abstinência permanente a 31 de março de 1995. Cerca de um mês depois, deixei também de tomar ansiolíticos.
Nesta fase inicial da minha recuperação, recordo-me de acabar de ler o livro “Alcoólicos Anónimos Atinge a Maioridade” (depois de ler todos os outros) e estar no parapeito da minha janela a observar uma pomba e realizar que, pela primeira vez na minha vida, percecionava a realidade tal como ela era sem estar entorpecido por nenhuma droga que alterasse o meu estado de espírito. Tendo ficado muito emocionado com essa tomada de consciência, tive nessa altura um tímido despertar espiritual.
No entanto, não tinha trabalhado afincadamente os Doze Passos e dei por mim a afastar-me de AA, dois anos depois, altura em que me casei.
O resultado foi obviamente desastroso. Nunca mais voltei a beber, mas passei a usar compulsivamente os meus “defeitos de carácter”. A conexão com o meu Poder Superior que me tinha posto sóbrio tinha-se perdido. Aprendi assim, da pior maneira, que a minha doença pode manifestar-se em várias áreas para além do álcool. Infelizmente, fui daqueles companheiros que cometeu mais erros depois de deixar de beber do que enquanto bebia. Assim sendo, acabei por me divorciar após 11 anos de casamento.
Seria só a partir de 2014 que teria novamente contacto com as reuniões de Doze Passos, através de uma irmandade que trata de dependência emocional.
Mas seria apenas em 2016 que voltaria novamente a frequentar algumas reuniões de AA, entre outras irmandades.
Conheci, nessa altura, um companheiro com quem finalmente trabalhei os Doze Passos de uma forma exaustiva.
Vinte anos depois de me ter afastado de AA, voltei assim a sentir-me sóbrio pela segunda vez e reconectado com o meu Poder Superior, tendo tido um despertar bastante mais acentuado que o primeiro, uma vez que me senti livre pela primeira vez de outros comportamentos compulsivos para além do álcool.
(…) pela primeira vez na minha vida,
percepcionava a realidade tal como ela era (…).
Tendo ficado muito emocionado com
essa tomada de consciência, tive nessa
altura um tímido despertar espiritual.
Infelizmente, foram 20 anos desperdiçados em que pensei que podia manter-me sóbrio pela simples abstinência do consumo de álcool.
Hoje, tendo encontrado uma comunidade onde me sinto cem por cento identificado, continuo a minha busca pela sobriedade, sabendo que ela assenta sobretudo na minha conexão com o meu Poder Superior, que resulta do trabalho constante dos Doze Passos e da partilha da minha experiência com outros
companheiros. Paulo S.
