Partilha Rev 98

O quarto mistério

Nasci e fui criado num meio rural em África. Era um povoado no interior profundo de Angola, onde não havia rede elétrica, água canalizada nem estradas asfaltadas.

Nesta latitude o céu escurece muito cedo. Ao fim do dia, a minha mãe acendia um candeeiro a petróleo que iluminava toda a sala com uma luz branca muito viva! Mas enquanto o jantar não chegava, tinha o hábito de ficar na rua, deitado de costas na areia a contemplar aquele imenso céu estrelado.

Ocasionalmente, uma estrela cadente riscava aquela abóbada imensa! Perdia-me a contemplar a Lua que de vez em quando mudava de feitio e mostrava aquelas sombras que me pareciam desenhos a carvão. Mais do que fascinante, o céu era

misterioso! De onde veio isto tudo? Quem fez isto?

Outra coisa que me deslumbrava, de manhã cedo, após a primeira chuva da época que ocorria normalmente na primeira semana de setembro, depois de uma estiagem de vários meses, eram aquelas plantinhas minúsculas que da noite para o dia rasgavam o chão e formavam um tapete verde infinito que mudava totalmente a paisagem e, uns dias depois, por cima, aparecia um tapete novo de flores coloridas e perfumadas!

E o que dizer das irrequietas aves policromáticas que entoavam, em simultâneo, dezenas de melodias? Quem as ensinou?

Num final de tarde, caminhando por um bosque silencioso, descobri que dentro da minha cabeça havia uma voz que falava. Mesmo estando sozinho e com os lábios cerrados, aquela voz teimava em falar e quanto mais eu queria que ela se calasse, mais ela falava. Sou eu mesmo ou é outro?! Era a minha consciência?! Será que as outras pessoas também têm isto? E de onde vem isto? Era o terceiro mistério!

Mas o tempo foi implacável! Veio a escola com os seus livros, cadernos, lápis, borrachas, afias, trabalhos para casa, testes, exames, recursos e a competição pelo melhor lugar ao sol. E foi esta luta por um lugar ao sol que começou subtilmente a obscurecer a minha existência!

Chegou a adolescência e com ela a primeira bebida, depois a segunda e uma carreira de vinte e sete anos de progressão da minha enfermidade alcoólica. Faculdade, trabalho, diversão, vida noturna, bebidas, namoros efémeros e sofridos, casamento, família, ressacas, fugas geográficas e no fim da linha o fundo do poço!

Com o andar do tempo tinha perdido a capacidade de me espantar. Só o álcool me causava alguma animação e de seguida castigava-me severamente! A mim e a quem de mim se aproximasse demasiado!

Parei de beber quando a família se cansou! Ouvi palavras duras da boca da minha filha, então com 11 anos de idade.

Foi a última vez que ingeri álcool. Se com álcool a vida estava insuportável, sem ele senti-me a entrar num túnel a caminho da morte. Tornei-me mais amargo, ressentido e intolerante que nunca!

Foram oito meses de inferno abstinente, até que vim a conhecer Alcoólicos Anónimos.

Senti-me envolvido por uma suave nuvem cor-de-rosa, fechei os olhos, baixei os braços e deixei-me embalar.

Parei de lutar! Entreguei-me completamente.

Senti-me um recém-nascido no colo da sua mãe. Tinha regressado a casa!

Comecei a fazer o Programa dos Doze Passos e a conhecer as Tradições e fiquei fascinado. Há quantas décadas tinha perdido a capacidade de vivenciar aquele fascínio, aquele maravilhamento! Voltei a sentir o prazer pelo mistério. Voltei a gostar de contemplar o céu estrelado, a apreciar as plantas e os animais, a entender a saga do ser humano e a conhecer o mais íntimo significado da palavra compaixão!

Reatei o diálogo com a misteriosa voz que fala dentro da minha cabeça e ela indicou-me o caminho da meditação e do autoconhecimento.

Já tinha percebido em criança esses três mistérios: o mistério do universo, o mistério da vida e o mistério da consciência. Para mim continuam a ser mistérios e o quanto isso me alegra!

O que eu não sabia é que havia um quarto mistério: quando dois alcoólicos desesperados querem parar de beber e partilham entre si a sua dor, encontram a saída para o seu sofrimento!

Bill e Bob assim fizeram em 1935 e depois deles muitos mais! Até eu!

Há quem chame a isso “identificação”. Não discordo, mas continuo a sentir que é o meu quarto mistério! E que por detrás desses quatro mistérios está aquilo a que em AA chamamos “Poder Superior”.

Não lhe atribuo nenhum nome ou adjetivo; sinto que está em todas as coisas e que é possível percebê-lo, mas só quando estamos em paz connosco, com os outros e com o mundo!

Carlos A

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