Partilha Rev 97

DO FUNDO DO POÇO À ALEGRIA DA RECUPERAÇÃO

Naquela manhã, acordei enrolada no sofá vomitado. A sala girava sem parar, a cabeça pesava, uma dor aguda parecia quebrá-la a cada instante. Com dificuldade, tentei erguer-me, para logo em seguida cair no chão.

À minha frente, várias garrafas vazias de cerveja, vinho branco e até whisky, bebida que nem apreciava, mas que estava ali a jeito.

Perdida naquele cenário de desolação e cheiro fétido, mergulhei a cabeça entre os braços e chorei amargamente por entre o sangue que escorria não sei bem de onde. Senti que era o fim, tinha batido de novo no “fundo do poço” e não me conseguia reerguer. Iria morrer com toda a certeza, mais dia menos dia, e não haveria ninguém para me socorrer, se eu própria não me queria libertar daquele inferno de garrafas e copos que tinha escolhido para a minha vida.

Solucei horas a fio, incapaz de me reerguer. Para quê levantar-me e arranjar-me à pressa para ir trabalhar se me sentia morta por dentro? Para quê passar mais um dia a fingir ser quem não era? Para quê agarrar no carro se poderia ter um acidente e causar uma desgraça ainda maior?

Estava sozinha em casa. Ninguém para testemunhar o estado deplorável em que me encontrava. Mas, sem me olhar ao espelho, conseguia ver o reflexo de um cadáver que me mirava com um misto de piedade, vergonha e desprezo.

Cabelo desgrenhado, roupa suja, amarrotada e húmida, olheiras profundas, pele macilenta, nódoas negras nos braços e pernas, um fio de sangue que escorria pela face.

Um quadro de rostos sorridentes do qual eu fazia parte, mas que brevemente acabaria engolido pelas trevas da minha insanidade.

Os soluços sufocaram-me, enquanto dentro de mim ouvia uma voz que me perguntava insistentemente: “É isso que queres, Clara?”. Não conseguia responder.

A minha voz não se conseguia fazer ouvir no meio do tumulto que agitava o meu corpo. A minha vontade estava aprisionada dentro de todas aquelas garrafas e copos que, progressivamente, iam apertando o cerco à minha volta. E assim fiquei uma eternidade abraçada à minha autopiedade e comiseração, culpando tudo e todos pela minha desgraça, pelo cadáver que tinha à minha frente, pela escuridão do fundo do poço em que me encontrava.

A voz, entretanto, continuava a ecoar na minha cabeça, esperando uma resposta:

“Clara, é isto que queres para o resto da tua vida?”.

Levantei-me, então, sob a sua insistência, e mirei-me ao espelho. Sim, o que nele via refletido era realmente um cadáver, um farrapo humano, mas nos seus olhos consegui encontrar ainda uma centelha de vida.

Ouvi de novo a voz: “Sim, ainda há uma esperança! Estás no fundo do poço, mas ainda não morreste e podes sair daqui! Queres sair daqui! Tu podes, tu mereces, tu consegues se trabalhares para isso! As meias- -medidas conduzir-te-ão sempre aqui, mas tens uma escolha: só por hoje, não vais beber!”.

Acalentada por esta voz de esperança, vinda da minha essência esquecida e abandonada, mas agora iluminada por um Poder Superior, recordei o slogan tantas vezes ouvido. nas reuniões de AA: “Se queres continuar a beber, o problema é teu. Se desejares parar de beber, o problema é nosso!”.

Hoje, decorridos quase dois anos, quando olho ao espelho já não encontro um

fantasma, mas um ser de luz, sereno, corajoso e feliz que, só por hoje, se dispõe

a ser feliz e a fazer os outros felizes sem álcool!

Reergui-me finalmente, amparada neste fio de esperança, e telefonei a uma companheira, pedindo-lhe que me ajudasse a recuperar a sobriedade. Com a sua ajuda, dispus-me a sair do fundo do poço e a colocar a minha recuperação em primeiro lugar, um dia de cada vez!

Regressei às reuniões do meu Grupo e com a ajuda dos companheiros e do meu Poder Superior reconquistei a minha recuperação e a alegria de viver sem o álcool como companhia; aprendi a agradecer cada dia, cada hora, cada instante; aprendi a aceitar as dificuldades como fonte de aprendizagem e crescimento; aprendi a sorrir nos dias de chuva; aprendi a procurar a serenidade para as coisas que não posso modificar; a encontrar coragem para enfrentar aquelas que posso modificar e a pedir sabedoria para distinguir umas das outras!

Hoje, decorridos quase dois anos, quando olho ao espelho já não encontro um fantasma, mas um ser de luz, sereno, corajoso e feliz que, só por hoje, se dispõe a ser feliz e a fazer os outros felizes sem álcool!

Clara N.

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