Partilha Rev 96

CONSEGUI LEVANTAR A CABEÇA

Nunca fui apreciadora de bebidas alcoólicas até aos 40 anos. Nem sequer aguentava um copo de sangria.

Então, socialmente e nos jantares/almoços com amigos, comecei a apreciar um copo de vinho branco à refeição, mas muito esporadicamente.

Casada há quase 30 anos, e com uma relação abusiva psicologicamente desde o início do namoro, tinha eu 19 anos, descobri que o álcool tinha um efeito analgésico quando o meu relacionamento entrou em crise por infidelidades do agora meu ex-marido.

Ao descobrir as traições, fiquei sem chão. Confusa, sem saber o que fazer, não queria estar naquele relacionamento, mas também não conseguia sair dele. Um misto de emoções tomou conta de mim.

Amor, ódio, ressentimento, raiva, humilhação e, ao mesmo tempo, impotência para acabar com aquela toxicidade que me fazia mal, mas com a qual (pensava eu) não sabia viver. Hoje concluo que aquela foi a minha primeira adição.

Durante quase dois anos tentei salvar um casamento sem salvação, fiz tentativas de suicídio (por diversas vezes o meu filho teve de me tirar as facas das mãos), sofri ataques de pânico, manipulei para o meu ex-marido não me deixar; discussões, perseguições constantes à pessoa com a qual ele me tinha traído, um sem fim de insanidades em que a medicação para a depressão, misturada com o álcool, tiveram um papel fundamental.

De repente, a bebida dava-me uma sensação de força, de prazer, de euforia, de dormência perante a dor emocional. Era maravilhoso…

Quando o meu ex-marido saiu de casa, e apesar de o meu filho ter ficado comigo, senti um vazio que depressa preenchi com comida e (muita) bebida, sempre às escondidas. O meu objeto de dependência tinha desaparecido e depressa o substituí pelo álcool. Durante os dias de semana só bebia à noite e, ao fim de semana, desforrava-me. Engordei e desleixei-me comigo mesma.

De qualquer maneira, eu não servia para nada, para quê arranjar-me e cuidar-me? Apenas sobrevivia. Ia trabalhar e esperava ansiosamente pela tarde para ir ao supermercado comprar garrafas de vinho que escondia no roupeiro para ninguém descobrir. E bebia durante o serão inteiro, até adormecer.

O meu filho, já adulto e a trabalhar, não se apercebia do que se passava comigo, só quando eu ainda tinha ataques de choro convulsivo em que era capaz de chorar horas sem parar. Sempre fomos muito chegados e eu fi-lo sofrer muito… é o meu grande arrependimento. Vê-lo de joelhos a chorar e a pedir para ter a mãe dele de volta porque aquela não era a mãe que ele conhecia.

De repente, aquilo que até então era a minha fonte de prazer, passou a ser o meu maior pesadelo. Bebia para não chorar e chorava por ter bebido. Um verdadeiro inferno!

Não tenho grandes memórias desse ano. Mas, em agosto de 2022, o meu filho foi de férias com o pai e, por coincidência, eu estava de férias também. Essa semana passei-a sozinha, do sofá para a cama e da cama para o sofá, a chorar sem parar e sem sair de casa, exceto para ir ao supermercado abastecer-me de álcool.

Quando o meu filho voltou, eu estava um farrapo humano e humilhei-me pela última vez. Telefonei ao meu ex-marido a pedir-lhe para voltar para mim porque eu não queria nem sabia estar sozinha. Foi aí que o meu filho me fez um ultimato. Ou o pai ou ele.

Já não aguentava mais. Ele próprio já andava no psiquiatra e a tomar medicação para a ansiedade e depressão para conseguir aguentar a situação e tinha verdadeiro pavor de nos voltarmos a juntar.

Nessa altura, o meu Poder Superior, Deus, pois sou crente, fez-me escolher… a mim. Apercebi-me de que a minha vida estava um caos, achava que não me encaixava neste mundo e que precisava de ajuda.

Não sei o que me fez sentar à secretária do trabalho a 16 de agosto de 2022 e pesquisar pelo site de AA. Nesse dia havia uma reunião na minha área de residência e tomei a

decisão de “não deixar para amanhã o que posso fazer hoje”.

“Esta é a doença do ainda e tu ainda

não perdeste o emprego, a casa, a família…

volta que isto resulta”

Ainda hoje os meus companheiros se lembram da minha entrada “triunfal” na sala. Atrasada, alcoolizada, mas muito bem-disposta e com uma caixinha de bolinhos, tal como tinha visto nos filmes americanos.

Não me lembro de quase nada daquela reunião. Sei que foi uma reunião de partilha e só há muito pouco tempo me lembrei de quem tinha sido o companheiro que me disse a frase “(…) esta é a doença do ainda e tu ainda não perdeste o emprego, a casa, a família… volta que isto resulta”.

Disseram-me que eu era a pessoa mais importante daquela sala! Há tanto tempo que não me sentia importante para alguém, ainda por cima para um grupo de estranhos! E havia pessoas que entendiam exatamente o que eu estava a sentir. E voltei!

Apesar de nos dois dias seguintes ainda ter bebido, no dia da segunda reunião, e perfecionista como sou, decidi que se era para andar para a frente com aquilo, era para ser a sério! O dia 19 de agosto de 2022 foi o meu primeiro dia de abstinência. O primeiro dia do resto da minha vida e o dia em que a verdadeira Cristina se começou a construir.

O novelo em que sentia que a minha cabeça se tinha tornado, estava finalmente a desaparecer.

Comecei a ir sempre às reuniões, a fazê-las online e a frequentar outros grupos. A minha família, e principalmente o meu filho, estão orgulhosos do passo que dei e de como a felicidade voltou ao meu espírito.

Graças a AA, ao Programa e aos meus companheiros, sou hoje outra pessoa. Consegui levantar a cabeça, nunca me senti tão bem comigo mesma, mudei o carro para o meu nome, mudei de casa e estou a decorá-la ao meu gosto. Cada quadro que prego na parede, cada coisa que compro ou arranjo sozinha sabe-me a vitória.

Afinal sou capaz. O mais difícil não foi parar de beber, foi encarar a vida e os seus problemas sem “muletas”. Agora vou à luta. A vida não é fácil, mas sei que sempre que preciso tenho a minha rede de proteção, a minha tribo, como eu lhe chamo. A Oração da Serenidade e o cartão “Só por hoje” andam comigo e quando me sinto mais ansiosa leio-os e fazem-me todo o sentido. Viver o agora é muito importante.

Não tenho problemas em assumir a minha doença, aliás tenho muito orgulho em pertencer a Alcoólicos Anónimos.

Faço serviço, o que me dá uma alegria imensa, a de poder partilhar a minha experiência e dar alguma esperança a outros que passaram pelo mesmo que eu, que a vida pode ser maravilhosa. Afinal é mesmo possível… se quisermos e se trabalharmos para isso.

Cristina S.

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