Nevoeiro cerrado
Nunca senti que a minha vida estivesse ingovernável. Tinha apenas um ligeiro problema com o álcool que gostaria de saber controlar melhor. Hoje, olhando para trás, sinto que estava a viver a vida, a olhar para ela através de um nevoeiro cerrado. Não consegui ver que passei muito tempo a viver sem direção, sem um propósito e muitas vezes sem dignidade. Talvez fosse esse o fator que me incomodava mais: a falta de dignidade nas minhas atitudes e comportamentos. Foi o sentir vergonha que me levou a pedir ajuda.
Sentia vergonha quando continuava na mesa depois de jantar, horas a fio a beber, a viver uma realidade paralela dentro da minha cabeça, a isolar–me cada vez mais mesmo tendo a casa cheia, a desconectar-me e a perder os laços afetivos com os que mais amo. Eu estava consciente que estava a afastar-me cada vez mais, e não queria, mas parecia que não tinha escolha, parecia que havia uma voz dentro de mim a dizer para beber só mais um copo. Sentia vergonha quando não conseguia controlar as minhas explosões de raiva com as pessoas que amo por situações que não mereciam tanto, e quando isso acontecia o único remédio era beber para atenuar o mal-estar emocional, que na minha cabeça tinha sido causado por outros e não pelas minhas atitudes.
Que nevoeiro era este que se punha diante dos meus olhos que não me deixava ver que era um alcoólico, mesmo com sinais de que o meu estado de saúde se estava a deteriorar, mesmo sabendo que me estava a desconectar emocionalmente dos que amo, que as minhas tentativas e soluções para controlar os meus consumos nunca resultavam, mesmo sentindo que estava infeliz e que a minha vida girava em torno do álcool?
Eu estava consciente que
estava a afastar-me cada vez mais,
e não queria, mas parecia que
não tinha escolha, parecia que havia uma
voz dentro de mim a dizer para
beber só mais um copo.
Decidi aceitar ajuda de uma clínica e entrei num programa de 28 dias. Mas para me poderem ajudar foi preciso eu confiar nas pessoas que me diziam que o caminho era aquele. Deram-me a mão e guiaram-me por entre o nevoeiro, e eu deixei-me conduzir. Sempre que posso agradeço a quem me ajudou neste processo, ao que me respondem “que isto só resultou porque confiei”. Na verdade, eu acho que me fizeram confiar. Foi fundamental voltar a criar laços com outros. Os terapeutas que me ajudaram fizeram-me sentir que realmente gostavam de mim e queriam o meu bem, que viam que no fundo eu era um bom rapaz que apenas tinha tomado muitas más decisões, e isso fez-me gostar deles e criou uma conexão forte. Este interruptor que se tinha desligado, voltou-se a ligar. Com ajuda, o nevoeiro foi-se dissipando e encontrei uma nova vida, mesmo quando a minha cabeça me diz para ir para a esquerda eu escolho ir pela direita, porque assim me é recomendado, pondo de lado a minha vontade, as minhas crenças e o meu orgulho. Eu arrisquei e fiz à maneira dos outros. Hoje vivo com objetivos traçados e trabalho todos os dias para os alcançar. Vivo com dignidade para poder dormir bem e acordo todos os dias à espera de receber novas bênçãos.
Mesmo quando as coisas não me correm tão bem, não desisto, porque para cada coisa má que me aconteceu neste ano de sobriedade aconteceram-me dez positivas.
No meu entender, isto deve-se muito ao meu estado de espírito geral: percebi que consoante o meu estado de espírito tenho maneiras diferentes de lidar com a mesma situação. E, então, foquei-me em aprender como cuidar do meu bem-estar físico, emocional e espiritual, e aprender sobre tudo aquilo que influencia o meu estado de espírito. Viver assim durante um ano provou-me que há uma relação direta entre o meu estado de espírito e as coisas que eu atraio. Não consigo explicar de que outra forma terei eu recebido tantas bênçãos. Não pode ser mera coincidência terem-me acontecido tantas coisas boas.
Com ajuda, o nevoeiro
foi-se dissipando e
encontrei uma nova
vida (…)
Com a certeza que a doença não desapareceu, preciso de continuar a afastar o nevoeiro, preciso de cuidar de mim, continuar a criar laços com outros baseados em honestidade, e sem esperar tirar algum benefício disso, conectar-me com pessoas que tenham os mesmos objetivos que eu. E que melhor sítio é esse senão numa sala de AA?
Daniel S.
