Partilha Rev 94

O DÉCIMO PRIMEIRO PASSO

A minha recuperação não se iniciou quando entrei em AA. Aí apenas teve início a minha abstinência, ainda com todos os defeitos que governavam a minha vida no seu expoente máximo e que determinaram, a priori, olhar para o Programa e pensar: “afinal são só Doze Passos, fixe, já eram”.

Contudo, aos poucos, os exemplos dos companheiros e os padrinhos que me suportaram, permitiram que olhasse para os Passos de um modo totalmente diferente. Aos poucos a abstinência dissipou a nuvem de álcool que envolvia o meu cérebro, fui ganhando consciência, ainda que efémera, da minha realidade de alcoólico e pensei: “já foste, afinal são Doze longos Passos”.

Percebi, graças a vós, que o que necessitava era de praticar os Passos, uma vez que este é um Programa de ação, não tem objetivos a curto prazo. É antes um caminhar constante e progressivo na busca de um equilíbrio emocional e espiritual que me estrutura para conseguir desenvolver e entender os meus sentimentos e emoções, de modo a entregar a minha vontade e aceitar a vida como ela se me apresenta. No fundo, tentar controlá-los ao invés de por eles ser controlado.

Foi nesse momento que a minha recuperação teve o seu início, a qual, à semelhança da minha doença, também teria de ser crónica e progressiva.

Fui percebendo que todos os Passos são uma progressão para alcançar o equilíbrio interior que se acentua neste 11o Passo, na meditação, e é aqui que mais peco por ainda não o conseguir pôr em prática na sua totalidade.

Sei bem que o inventário diário que faço, não numa base diária, mas recorrentemente, me traz uma sensação de paz e serenidade, de autoconhecimento, que me permite ser uma pessoa mais serena, mais tolerante e aprender com os erros que cometo no dia a dia, seja com atitudes, palavras ou pensamentos.

A oração matinal, a da serenidade, que optei por ser mais simples, direta e curta, faço-a muitas vezes, mas não numa base diária. Entendo que é a falta da prática da oração e do inventário numa base diária que me dificultam, talvez, a capacidade de conseguir meditar ou talvez a minha preguiça e inércia que ainda teimo, por vontade própria, em cultivar.

Talvez ainda não tenha alcançado uma estrutura emocional e espiritual que me encoraje a praticá-la de forma mais veemente. Sei que me compete colocar ação nesta prática, pois será ela que me permitirá alcançar um maior equilíbrio espiritual e emocional.

Embora simples, não me foi fácil iniciar a minha caminhada neste Programa. Tive de separar a minha realidade em “antes de AA” e “depois de AA” para começar a pôr em prática os Passos, pelo menos até fazer, sim fazer, os meus 4o e 5o Passos pela primeira vez e aí a porta para o meu passado abriu-se de par em par, permitindo-me uma libertação da culpa e do arrependimento que nunca sonhei ser possível. A caminhada tornou-se mais ligeira.

Reconheci, finalmente, que fora governado pelo orgulho e pelo ego desmedidos, pela mentira e pela manipulação que o meu egoísmo exigia. Melhorei bastante como pessoa, ao longo destas 24 horas, com a vossa ajuda, com a ação que desenvolvo, servindo AA como forma de mostrar a minha gratidão pelas dádivas que recebo.

A seu tempo, ser-me-á possível pôr finalmente em prática a meditação e tenho fé e esperança que será mais um salto qualitativo na minha caminhada. Até lá, continuarei a contar convosco, a servir e a apostar na minha recuperação.

Gosto do que vejo hoje, mas não descuro um olhar de soslaio sobre o passado, pois hoje é este que potencia o meu Primeiro Passo todos os dias, ao acordar.

João E.

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