Ressentimentos e Perdão: quebrar correntes e recuperar a vida.

Para mim, ressentimento é guardar emoções negativas como a raiva, mágoa, frustração muito depois de um acontecimento. É como ter uma ferida que parecia curada, mas que, ao menor toque de uma memória, palavra ou gesto, volta a sangrar. Alimenta-se do passado e, se não for resolvida, começa a controlar o presente. É como segurar uma brasa na mão que me queima a mim e não a quem a atirou.

Vivi assim durante mais de 35 anos, preso a raivas e mágoas mal resolvidas. Muitas vezes pensei que já tinha superado certas dores, mas bastava um momento para tudo voltar. Era uma revolta contra alguém, a dor de algo que não correu como eu queria, o rancor de ter sido magoado. E carregava isso em silêncio, achando que era normal. Mas definitivamente não é.

O ressentimento é uma prisão imaginária, sem grades, mas com amarras fortes. Rouba energia, desgasta relações, alimenta a dor e, no meu caso, com a doença do alcoolismo, é uma ameaça constante à minha recuperação. Por isso, a cada 24 horas, procuro evitá-lo e libertar-me.

Quero partilhar convosco a minha experiência com essa escravidão emocional e a chave que encontrei para sair dela: o perdão. Não falo de um perdão forçado, religioso ou imposto. Falo de um perdão real, profundo, que liberta antes de mais nada, a mim próprio. Como diz a frase atribuída a Nelson Mandela: “Guardar ressentimentos é como beber veneno esperando que o outro morra.”

Ao longo da minha caminhada, percebi que os ressentimentos atuam de três formas perigosas:

  • Mantêm as feridas abertas: cada lembrança dolorosa volta como se fosse agora. E essa dor constante leva a procurar alívio. No meu caso, durante anos, esse alívio foi o álcool.
  • Alimentam a autossabotagem: pensamentos como “ninguém me entende” ou “sou um falhado” serviam de desculpa para desistir de tentar e voltar à bebida.
  • Roubam o presente: quando estou preso ao passado, não consigo viver o aqui e agora, mas a recuperação acontece “só por hoje”.

Entendi que o ressentimento não é apenas um sentimento desconfortável: é um risco real para a minha sobriedade. Muitas vezes, culpei familiares, amigos, colegas, chefes e até eu próprio. Esses ressentimentos, percebo hoje, eram justificações inconscientes para beber. Era como dizer: “Com tudo o que me fizeram, como não beber?”

Cada ressentimento não resolvido era como uma porta entreaberta para uma recaída. Bastava um dia mau ou uma memória dolorosa para alimentar a vitimização e a voz interna que pedia alívio. E o alívio, durante anos, era beber. Por isso, libertar-me dessas correntes não é luxo — é necessidade vital para continuar vivo.

Com o Programa dos Doze Passos e a minha ligação a AA, descobri que o perdão é a chave que quebra essas correntes.

E não, não significa esquecer o que me fizeram, nem fingir que foi justo. Perdoar é uma escolha minha:

  • É decidir deixar de alimentar sentimentos negativos como raiva e mágoa;
  • É escolher não ficar mais preso à dor;
  • É retomar o controlo sobre a própria vida;
  • É não deixar que o passado continue a mandar nas emoções do presente.

Quando comecei a perdoar, algo mudou. Senti uma leveza que o álcool nunca me deu. O passado permaneceu o mesmo, mas dentro de mim houve espaço para a paz e a esperança. Descobri que a solução que tanto procurava estava dentro de mim e continua cá. O processo nem sempre é rápido, mas sei que o perdão é uma das razões pelas quais, hoje, tenho momentos reais de felicidade. É uma arma que carrego todos os dias, e não contra os outros, mas para não me perder de mim mesmo.

Aprendi que perdoar não é um ato único, mas uma prática diária. Começo por reconhecer a dor, sem me julgar por senti-la. Depois, partilho-a com alguém de confiança, no grupo, em oração ou por escrito. Tento ver a situação pelos olhos do outro, não para justificar, mas para me libertar. Há dias em que tudo o que consigo fazer é parar e respirar, lembrando-me de que o perdão é coragem e liberdade.

Perdoar não me tornou imune à mágoa. Continuo a sentir raiva ou tristeza quando algo me magoa, mas já não fico acorrentado a isso. Antes, cada mágoa acumulava-se e pesava cada vez mais. Hoje, consigo esvaziar essa mochila antes que ela me arraste para o fundo do poço.

Sei que para muitos, a palavra “perdão” pode soar impossível ou distante. Eu também pensei assim durante décadas. Mas percebi que não se trata de aprovar o que foi feito, mas de recusar que isso continue a roubar-me o presente. Não é esquecer, mas é decidir que o passado já não tem poder sobre mim.

Depois de tantos anos preso ao que me magoou, encontrei no perdão um caminho para a paz. Não foi fácil: exigiu coragem, verdade, gratidão e humildade. Mas é possível. Se eu, que vivi mais de três décadas a alimentar ressentimentos, consegui dar este passo, qualquer um pode.

O ressentimento é uma prisão silenciosa, mas existe saída. E ela começa com uma decisão: chega de carregar pesos que não me servem. Chega de deixar que o passado mande no presente. Hoje vivo um dia de cada vez, com mais leveza, presença e gratidão. Aprendi que perdoar não é um favor ao outro, mas um presente que ofereço a mim mesmo.

Deixo-vos uma pergunta: De que ressentimentos ainda és escravo? Estás pronto para largar a brasa e escolher a liberdade?

Esta partilha nasceu de uma reunião temática do Grupo Ponte para a Serenidade, onde tive o privilégio de falar sobre este tema tão essencial à minha sobriedade. Termino como termino sempre: Só por hoje fui feliz. Com amor em AA, desejo-vos 24 horas serenas.

Jorge P.

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