O Programa é Simples se eu Não Complicar
O que me parecia impossível aconteceu! Em momento algum sonhei ou acreditei que seria possível viver sem álcool.
Estávamos no final do verão de 2005 quando comecei a equacionar largar o álcool, mas tinha poucas ilusões; depois de passar quase 30 anos a beber, a vontade de deixar não era muita. Porém, já havia vários fatores que pesavam muito na minha decisão: falência espiritual, atitudes discriminatórias, pré-falência económica, medo de ser inibido de conduzir, risco de perder o emprego, divórcio à vista, falta de respeito para com a família, colegas de trabalho, comigo próprio e com a sociedade em geral…
Enfim, quem era eu? Como deixei que isto me acontecesse? Até onde me deixei levar? Porque é que só a mim isto acontece? — perguntava-me.
Logo eu, que passei a minha juventude a julgar as pessoas que, depois de beberem em excesso, maltratavam as esposas e os filhos, provocavam desacatos nos cafés, nas ruas e nos tascos; no futebol e em todo o lado! Dizia para mim próprio: “Eu nunca vou ser um desses!” Pois acabei por ser um deles — e talvez até bem pior.
Não me orgulho disso, mas era a verdade. Continuava a beber e ia varrendo os problemas que se acumulavam para debaixo do tapete.
Comecei a perder a vergonha e o respeito por mim próprio. De vez em quando, lá vinha a voz de alguém que me dizia: “Tu consegues largar isso! O álcool vai matar-te aos poucos!” E eu, na minha pequena esperança, jurava: “Um dia vou largar de vez.” Mas tantas foram as promessas que fiz a mim próprio sem cumprir, que já nem eu acreditava nelas. Tinha consciência de que aquilo não podia durar muito, pois o meu organismo começou a dar sinais cada vez mais claros. Os exames laboratoriais que fiz vieram confirmar o que mais temia, mas que sempre insistira em ignorar.
Naquele que considero o meu primeiro dia de sobriedade, pedi ajuda médica. Estive internado numa clínica cerca de 18 dias, findos os quais regressei a casa “curado”, entregue à minha sorte. Felizmente, passados alguns dias, tive conhecimento da existência de Alcoólicos Anónimos e aí, sim, foi o princípio de tudo. O que me gerou alguma confusão foi ter encontrado pessoas já com longos anos de sobriedade que continuavam em Alcoólicos Anónimos. E interrogava-me, intrigado: “Já com tantos anos sem beber, que vêm cá fazer estas pessoas?”
Com o passar dos dias, fui-me apercebendo de que, quanto mais tempo tenho no programa, de mais reuniões preciso. Hoje em dia tenho muitas razões para agradecer e nada a exigir, pois AA deu-me as ferramentas necessárias para trabalhar o programa, que é simples — se eu não o complicar. No final de cada dia, o meu coração transborda de amor e alegria por mais um dia em sobriedade.
Mais uma vez quero agradecer a Alcoólicos Anónimos por existir, porque hoje é a razão pela qual ainda faço parte da raça humana. Não consigo exprimir por palavras o quanto sou feliz por estar sóbrio — livre do álcool. Sou grato não apenas pela sobriedade, mas também pela qualidade de vida que ela me proporciona.
- Valente
