Uma dívida impagável

Já tinha deixado de beber há sete meses quando conheci Alcoólicos Anónimos. Estava abstémico, mas não sabia que era portador de uma doença incurável, progressiva e fatal.

A minha vida — e a dos meus familiares mais próximos, sobretudo a da minha mulher — continuava um inferno. Ela chegou a dizer-me que já não sabia o que preferia: aturar-me bêbado ou suportar este estado de “bebedeira seca” em que eu me encontrava.

Sem a anestesia temporária que o álcool me proporcionava, os meus ressentimentos e o meu sarcasmo atingiram níveis quase insuportáveis. Tudo o que me acontecia de mau era culpa dos outros; eu era sempre a vítima.

Depois de várias tentativas falhadas de parar de beber durante dois ou três meses, desta vez, quando decidi que seria “para sempre”, a loucura começou, sorrateiramente, a apoderar-se de mim. Perdi completamente o domínio das minhas emoções: tanto era capaz de atirar pratos contra a parede como de me fechar no quarto a chorar como uma criança. Outras vezes, enterrava a cara na almofada e libertava gritos de raiva.

Alguns lampejos de lucidez diziam-me que não era normal um homem de quarenta e três anos chorar daquela maneira. Perdido, sem saber o que fazer da vida, houve momentos em que pensei no suicídio.

Tinha tudo planeado: pegava no carro, ia às bombas de combustível comprar quatro bidões de gasolina — os mesmos que já estavam vazios no porta-bagagens — e seguia para uma estrada isolada, junto a uma falésia, longe da cidade. Regava o interior do carro com o combustível, sentava-me ao volante, acelerava a fundo e acendia um isqueiro. Depois de um voo de vários metros, o carro cairia em chamas no mar. Este “filme” passou-me pela cabeça inúmeras vezes.

Foi por essa altura que ouvi alguém dizer uma frase que me gelou o sangue: “Uma mente ociosa é a oficina do Diabo.” E senti que era exatamente isso que estava a acontecer comigo — a minha mente estava ociosa, vazia.

Tive a felicidade de os Alcoólicos Anónimos entrarem, literalmente, pela minha casa dentro. Nunca tinha ouvido falar de AA, mas um dia vi uma pequena reportagem na televisão, alusiva ao Dia Nacional de AA em Portugal. Pedi ajuda — e foi assim que AA entrou na minha vida há 22 anos. E nunca mais saiu.

Logo que pude, arranjei um padrinho que me ajudou imenso. Era bastante mais velho do que eu e tinha já vários anos de caminhada em sobriedade.

Sentia-me profundamente grato e perguntei-lhe como poderia retribuir a AA tudo o que estava a fazer por mim. Sentia-me em dívida. Ele respondeu-me, lacónico:

— Essa dívida é impagável.

— Impagável? Porquê? — Perguntei.

Com o seu jeito bem-disposto, sugeriu-me que escrevesse num papel: “A dívida a A.A. é impagável.”

Disse-me para refletir sobre a frase e voltar a procurá-lo quando encontrasse a resposta.

Pôs-me a pensar. Depois de alguma reflexão — e de alguns rabiscos no meu caderno de inventário diário — concluí que, sendo verdade que “o único propósito primordial de Alcoólicos Anónimos é levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre”, essa era a resposta. Simples!

Procurei-o e disse-lhe, sorridente:

— É muito fácil.

— A sério? Conta-me.

— A única forma de pagar a dívida é levar a mensagem ao alcoólico que ainda sofre. O serviço é a única maneira de retribuir.

Ele sorriu e insistiu:

— Pois eu continuo a dizer-te: a dívida é impagável.

— Lá estás tu outra vez! Desisto! Não consigo entender! Explica-me o que queres dizer com isso!

Ele soltou uma gargalhada e respondeu:

— Já reparaste que quanto mais trabalhas, quanto mais serviço fazes, quanto mais ajudas outros alcoólicos, mais te recuperas?

— Sim, é verdade. Mas o que é que isso tem a ver?

— O que tem a ver é que quanto mais te recuperas, mais ficas a dever.

Finalmente compreendi e murmurei:

— A dívida a Alcoólicos Anónimos é, de facto, impagável.

A explicação fazia todo o sentido.

— Mas não te preocupes — disse ele, rindo —, que nenhum fiscal te vai cobrar!

Quando regressei a casa, reparei que tinha um pneu furado. Abri o porta-bagagens para tirar o pneu de socorro e vi que os bidões vazios ainda lá estavam. Sorri, encostei-os a um canto da garagem e lá ficaram — até mudarmos de casa, alguns anos depois.

Carlos S.

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